Todos os anos, ao se aproximar o Natal, fala se muito sobre o chamado “espírito natalino”. A ideia de um clima de bondade, solidariedade e fraternidade parece dominar o imaginário coletivo.
No entanto, essa compreensão moderna nem sempre corresponde ao verdadeiro sentido do Natal cristão.
O Natal é uma celebração cristã e católica que recorda o mistério da Encarnação, quando o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14).
Embora a maior festa do cristianismo seja a Páscoa, o Natal possui uma função litúrgica própria e central, pois celebra a entrada definitiva de Deus na história humana.

O Natal E Os Primeiros Cristãos
Não é difícil encontrar na liturgia e na reflexão da Igreja primitiva o zelo e a piedade em recordar o nascimento daquele que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Jesus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, assumiu plenamente a condição humana.
Nosso Senhor teve uma família, viveu em um lugar concreto, alimentou se como nós, sentiu cansaço, fome, frio e calor, sendo semelhante em tudo a nós, exceto no pecado (Hb 4,15).
Já no final do século II, Clemente de Alexandria demonstra que o nascimento de Jesus era objeto de reflexão histórica entre os cristãos. Em sua obra Stromata, Livro I, ele afirma que o Senhor nasceu no vigésimo oitavo ano do reinado de Augusto, quando foi realizado o recenseamento mencionado no Evangelho segundo São Lucas (Lc 2,1).
Clemente registra ainda que alguns cristãos de seu tempo buscavam determinar não apenas o ano, mas também o dia do nascimento de Cristo. Isso demonstra que o interesse pela Natividade antecede em mais de um século a instituição litúrgica formal do Natal no século IV.
Assim, desde os primeiros séculos, o Natal possui raízes embrionárias no seio da Igreja primitiva, não como fruto de uma invenção tardia, mas como memória viva do mistério da Encarnação.
Um Natal Sem Deus
A Revolução Francesa, se não foi a primeira, certamente foi uma das mais significativas revoluções que tiveram como objetivo ofuscar o cristianismo no mundo ocidental.
Houve, inclusive, a tentativa de reformular o calendário, com a intenção de apagar da memória coletiva as datas litúrgicas e os dias de preceito cristãos.
Embora a reforma do calendário tenha fracassado, a revolução cultural mostrou se mais eficaz. Não ocorreu uma abolição explícita do Natal, mas uma ressignificação do seu sentido original.
O centro da celebração deixou de ser o mistério da Encarnação e passou a ser aquilo que se convencionou chamar de “Espírito do Natal”.
O mundo ocidental, fortemente influenciado por ideologias anticristãs, passou a apresentar o Natal como algo antiquado, vazio e sem sentido para o homem contemporâneo.
Assim, o Natal foi reduzido a uma comemoração social de fim de ano, fenômeno semelhante ao que ocorreu com a Páscoa e outras festas litúrgicas.
O evento central da Encarnação do Verbo foi progressivamente substituído por um discurso mercadológico e midiático, que promove uma atmosfera emocional e sentimental em torno do chamado “Espírito do Natal”. Mas afinal, trata se da mesma realidade? Evidentemente, não.
Filmes, músicas e campanhas publicitárias apontam para uma ideia completamente distinta daquela que movia os primeiros cristãos, que se alegravam não por um clima social passageiro, mas pela chegada de Deus ao mundo, que se fez homem para a salvação da humanidade.

A Centralidade Do Natal
O Natal, para grande parte da sociedade contemporânea, passou a apoiar se em uma mentalidade de altruísmo filantrópico desprovido de fundamento cristão.
A centralidade do Natal deixou de estar em torno do Deus verdadeiro e passou a girar em torno do próprio homem, que busca afirmar que pode ser bom sem Deus.
O núcleo simbólico dessa nova concepção natalina, representado pela figura do bom velhinho de barbas brancas, revela o próprio homem como protagonista da bondade.
Trata se da falsa ideia de que o ser humano é o autor último do bem e da justiça. Nesse movimento, o homem substitui Deus pelo desejo de ser ele próprio a medida do belo e do bom (Gn 3,5).
Forma se, assim, um Natal do homem em paralelo ao Natal cristão. Enquanto o primeiro é exaltado por uma cultura consumista e hedonista, o segundo é progressivamente esquecido.
O Natal cristão, porém, não celebra um sentimento passageiro, mas um acontecimento definitivo: Deus entrou na história, assumiu a carne humana e revelou que a verdadeira caridade nasce da verdade e da conversão do coração (1Jo 4,9-10).
O Natal Não é um Clima Mas um Acontecimento
O chamado “Espírito do Natal” não é uma realidade espiritual autônoma, mas uma construção cultural moderna que dilui o sentido profundo da celebração cristã.
A caridade, tão exaltada nesse período, não é negada pelo cristianismo, mas encontra no mistério da Encarnação o seu verdadeiro fundamento.
O cristão não é chamado a ser bom apenas no Natal, mas a viver a caridade como fruto permanente de uma vida transformada por Cristo. O Natal não é um clima social nem uma emoção coletiva.
O Natal é a celebração do Verbo que se fez carne, e somente à luz desse mistério é que a verdadeira bondade humana encontra o seu sentido pleno (Mt 1,23; Jo 3,16).